Quando ouvimos a expressão “sair do armário”, geralmente associamos ao movimento LGBTQIAP+, mas esse termo também pode ser ressignificado para outras identidades que, por muito tempo, foram invisibilizadas. Agora, estamos começando a ver um novo movimento: pessoas surdocegas assumindo publicamente sua identidade e reivindicando acessibilidade, inclusão e respeito às suas especificidades culturais e identitárias.
A surdocegueira, muitas vezes, é cercada de estereótipos e falta de informação. Ainda há um grande desconhecimento sobre as diversas formas de comunicação utilizadas por essa comunidade. Embora existam guias-intérpretes de Libras tátil, Libras protátil e Háptica eles ainda são poucos e nem sempre estão disponíveis. No entanto, a comunicação das pessoas surdocegas vai além da interpretação tradicional, incluindo técnicas como o Tadoma, a escrita na palma da mão e outros métodos adaptados às necessidades individuais.
A Importância da Representatividade na Interpretação
Um ponto fundamental na acessibilidade para pessoas surdocegas é a escolha dos intérpretes. Embora existam intérpretes ouvintes e surdos, a comunidade surdocega muitas vezes prefere intérpretes surdos, pois eles conseguem captar e transmitir a essência da informação de forma mais fiel. Isso acontece porque a vivência como pessoa surda traz um entendimento mais profundo da identidade surda e de suas nuances culturais e linguísticas, algo que um intérprete ouvinte, por mais capacitado que seja, dificilmente consegue mensurar totalmente.
A Maior Barreira Ainda é a Falta de Oportunidades
Sair do armário, nesse contexto, significa não apenas se reconhecer como surdocego, mas também enfrentar uma sociedade que ainda não está preparada para oferecer oportunidades iguais. Muitas pessoas surdocegas querem estudar, trabalhar e ter autonomia, mas ainda encontram barreiras na comunicação, no acesso à educação e na inclusão profissional.
Apesar dos avanços em acessibilidade, a realidade ainda é excludente:
- Poucas empresas contratam pessoas surdocegas, alegando falta de estrutura para inclusão.
- As universidades não oferecem recursos suficientes, tornando o aprendizado mais difícil.
- A falta de guias-intérpretes e tecnologias assistivas limita a participação ativa em muitos espaços.
- Os espaços digitais ainda não são acessíveis, e há poucos cursos online que utilizam imagens e design acessíveis para baixa visão e surdocegos.
Precisamos Ampliar Essa Conversa
A sociedade precisa entender que pessoas surdocegas têm potencial, talentos e o direito de ocupar qualquer espaço. Mas, para isso, é fundamental que empresas, universidades e instituições ofereçam condições reais de acessibilidade, respeitando as identidades e as preferências comunicacionais dessa comunidade.
Surdocegos e a Falta de Acessibilidade nos Espaços Culturais: Quem Deve Garantir o Acesso?
A acessibilidade para a comunidade surdocega ainda é um grande desafio no Brasil em pleno século XXI. Apesar de avanços em algumas áreas, há uma enorme lacuna quando falamos de participação cultural. A falta de dados concretos sobre essa população, aliada à ausência de políticas públicas eficazes e à burocracia excessiva, reforça um cenário de exclusão.
Quantas Pessoas Surdocegas Existem no Brasil? O Censo Não Sabe!
Uma das maiores dificuldades para implementar políticas públicas voltadas para a inclusão de surdocegos é a falta de dados confiáveis. O Censo Demográfico de 2022, realizado pelo IBGE, não coletou informações específicas sobre surdocegueira, apenas sobre deficiências auditivas e visuais de forma separada. Isso significa que não há números oficiais exatos sobre quantas pessoas surdocegas vivem no Brasil, tornando difícil a destinação de recursos e a criação de projetos acessíveis.
Além disso, o Censo não contou com consultores surdocegos para auxiliar na elaboração de perguntas ou na análise dos dados. Se tivesse, poderia ter garantido uma coleta de informações mais precisa e representativa da realidade desse grupo.
A Falta de Intérpretes e Profissionais Qualificados
Outro obstáculo é o número reduzido de intérpretes de Libras Tátil e Protátil – profissionais fundamentais para a comunicação de surdocegos. Hoje, há pouquíssimos profissionais capacitados, e a demanda é muito maior do que a oferta. Além disso, dentro da comunidade surda, muitos defendem que o intérprete ideal para surdocegos seja um profissional surdo. Isso porque os intérpretes ouvintes, por mais capacitados que sejam, não vivenciam a experiência da surdez e podem ter dificuldades em transmitir a essência da informação com a mesma profundidade cultural e identitária.
Quem Deve Garantir Acessibilidade em Espaços Culturais?
A participação da comunidade surdocega em eventos culturais também é limitada. Recentemente, a peça Os irmãos Karamazov, realizada no Sesc Pompeia, não contou inicialmente com intérpretes especializados para esse público. Graças ao esforço de consultores surdos de última hora, intérpretes de Libras Tátil e Protátil foram incluídos na apresentação. Esse improviso revela a falta de planejamento e o desconhecimento sobre a importância da acessibilidade desde o início da produção cultural.
Quem deveria garantir essa acessibilidade? O Sesc ou a produção do espetáculo? Esse tipo de descaso demonstra como a diversidade do público ainda não é considerada na concepção de eventos culturais.
A questão financeira também pesa. Muitas vezes, surdocegos precisam levar seus próprios intérpretes, arcando com os custos. Mas a responsabilidade deveria ser das instituições culturais, do poder público e das próprias produções artísticas.
Burocracia: Um Obstáculo que Atrapalha a Inclusão
Mesmo quando há reconhecimento da necessidade de acessibilidade, a burocracia torna tudo ainda mais difícil. A aprovação de verbas emergenciais para garantir intérpretes e guias-intérpretes, por exemplo, pode levar muito tempo, inviabilizando soluções rápidas. Isso impede que surdocegos tenham acesso imediato à cultura, criando uma exclusão contínua.
A demora nos processos de aprovação financeira é um dos principais fatores que impedem mudanças eficazes. Muitas produções culturais não conseguem garantir acessibilidade porque os recursos necessários não chegam a tempo. Sem uma estrutura ágil de aprovação e liberação de verba, medidas de inclusão continuam sendo tratadas como exceção, quando deveriam ser a norma.
A Importância de Profissionais de Acessibilidade e Inclusão nos Projetos Culturais
O caso do Sesc Pompeia demonstra a necessidade de incluir profissionais especializados em acessibilidade e inclusão nas equipes de produção cultural. Se houvesse consultores surdos e surdocegos envolvidos desde o início do projeto, a acessibilidade teria sido planejada de forma adequada, sem depender de soluções improvisadas na última hora.
Além disso, surdocegos podem ser contratados para realizar vistorias e análises de acessibilidade nos teatros, identificando os melhores lugares para acomodação desse público junto aos intérpretes de Libras Tátil e Protátil. Eles também podem sugerir adaptações na iluminação e na disposição dos espaços, garantindo uma experiência teatral mais acessível.
Outra questão fundamental é a participação ativa de intérpretes de Libras Tátil e Protátil nos ensaios. Isso é essencial para que eles compreendam melhor os personagens, situações e contextos da peça, garantindo uma interpretação mais fiel e de qualidade para o público surdocego.Além disso, a presença de surdocegos no processo de criação artística pode contribuir para o desenvolvimento de sinais e códigos específicos para a linguagem teatral surdocega. Isso permitiria que esse público tivesse uma experiência mais imersiva e enriquecedora, sem depender exclusivamente de adaptações tardias.
Carlos Alexandre, pessoa surda e intérprete de Libras tátil e protátil, dá seu depoimento sobre o trabalho realizado no espetáculo Os Irmãos Karamázov:
Durante minha vivência no teatro como intérprete para pessoas surdocegas, percebi o quanto essa experiência é desafiadora e exige adaptações cuidadosas. Em uma das apresentações do espetáculo Os Irmãos Karamazov, tive a oportunidade de interpretar para uma pessoa surdocega vinda da França — foi sua primeira vez assistindo a uma peça teatral no Brasil. Essa situação trouxe complexidades, sobretudo na definição de onde o intérprete deve ficar posicionado: à frente ou atrás da pessoa. A metodologia adotada inicialmente não funcionou bem; houve falhas na comunicação e na entrega da experiência. No entanto, na segunda tentativa, com outra pessoa surdocega, conseguimos um avanço significativo: ela solicitou um resumo prévio da história com detalhes importantes, o que facilitou bastante sua compreensão durante a peça.
Outro momento marcante foi com uma terceira pessoa surdocega que preferiu a interpretação feita diretamente à sua frente. Nessa situação, utilizei um espelho para auxiliar, mas o método se mostrou mais difícil. Cada pessoa surdocega tem um estilo próprio de recepção e compreensão da informação, e por isso é fundamental perguntar antes sobre suas preferências. Algumas pessoas conseguem visualizar personagens com uma imagem ou foto simples, outras precisam do toque direto nos figurinos ou objetos. Em uma das sessões, levei uma das participantes para conhecer o livro sensorial da peça com Braille — e isso a ajudou muito na construção da narrativa. Não existe um padrão único de tradução: é necessário adaptar o formato e a estratégia ao perfil de cada pessoa surdocega, e não impor a experiência do próprio intérprete. A estratégia deve partir delas, com a escuta ativa e respeito às suas necessidades.
Além disso, percebi a importância de se trabalhar com uma equipe de intérpretes bilíngues e especializados, e com estruturas físicas adaptadas — como cadeiras giratórias, espaço para sentar frente a frente ou costas com costas, e livre movimentação para toque em objetos de cena. A descrição dos ambientes e o uso de códigos combinados entre a equipe de intérpretes também são fundamentais para garantir a fluidez e a qualidade da experiência. É essencial estudar previamente a peça, mapear os códigos e garantir que todas as informações estejam acessíveis. Afinal, a pessoa surdocega tem o direito de vivenciar a peça com emoção, entendimento e pertencimento. É como montar um quebra-cabeça: a essência e a emoção precisam estar presentes. Por isso, é urgente pensarmos em espaços adaptados para o teatro acessível, como nos centros culturais e demais instituições.



