Como perder o medo de errar me fez naturalizar a convivência com DEFs

A minha existência enquanto criança e adolescente foi marcada pela quase completa falta de convívio com pessoas com deficiência. Preciso de apenas um algarismo para contar a quantidade de pessoas à minha volta que tinham algum tipo de característica que a retiravam do padrão esperado.

Em primeiro lugar, o meu tio avô Murilo, um homem gentil e culto, que ficou cego depois de um glaucoma e se refugiou em uma casa de praia no litoral sul do estado. Ele não saía de casa, não interagia mais com o mundo e conhecia todos os centímetros daquela habitação. O relógio antigo dava badaladas altas para avisar as horas, ele tinha uma rotina rígida com horários de alimentação e em certa altura do dia ele parava ao lado da vitrola para ouvir óperas que eu não compreendia.

Em segundo lugar, minha tia avó Iolanda, irmã de tio Murilo, que foi perdendo a audição com o avanço da idade e usava aparelho auditivo. Ela era meiga e engraçada, uma senhorinha espirituosa, que vivia passeando, fazendo artes manuais e cuidando de tio Murilo. Eu adorava os dois e os considerava os tios avós legais.

Em terceiro lugar, o filho de um amigo do meu pai, que agora não recordo o nome, uma criança com síndrome de Down a quem eu nunca consegui me conectar, que me causava uma estranheza desconfortável e até um certo tipo de medo. Ele era imprevisível, não correspondia aos comportamentos esperados dentro de um padrão social e chegava a ser impulsivo e violento. Naquele momento, enquanto criança, eu achava que ter síndrome de Down era ser, inevitavelmente, como ele. E isso me assustava.

Vale dizer que essas foram as minhas únicas experiências mais duradouras com pessoas que tinham alguma deficiência e elas, com certeza, não me ensinaram sobre a vastidão do que podem ser as características e formas de viver as deficiências. Vindo de uma realidade completamente afastada de pessoas com deficiência, é bem óbvio dizer que eu tinha muitos estigmas e preconceitos.

Quando decidi iniciar o meu trabalho na 7.1 criando conteúdo eu sabia pouquíssimo ou quase nada sobre nomenclaturas corretas, sobre especificidades e características, sobre vivência e coexistência com DEFs, sobre acessibilidade e inclusão, etc. Mas eu tinha vontade de aprender. Então, os primeiros meses de trabalho foram de muita pesquisa, treinamento, momentos para tirar dúvidas e, em alguma medida, pequenos passos que dava pisando em ovos para não cometer erros. Sendo eu uma pessoa que defende pautas minoritárias de esquerda, isso para mim significava aprender ainda mais sobre uma nova pauta minoritária que atravessa os corpos e a existência.

Porém, um dos meus maiores anseios ao começar a trabalhar com conteúdos sobre acessibilidade e existência DEF foi de não ser capaz de naturalizar e agir espontaneamente em espaços que antes eram desconhecidos para mim, principalmente porque eu lembrava do medo que tinha do filho do amigo do meu pai. E isso, de maneira muito sincera, me causava medo de ter medo ou reações que não eram corretas ao me deparar com pessoas com deficiência. Em resumo, eu tinha receio de ter um comportamento errado e ser capacitista.

O meu medo era de que de alguma forma o meu desconhecimento sobre as vivências DEFs me fizessem ter atitudes erradas ou não politicamente corretas quando o assunto é capacitismo. Mas o tempo tem me ensinado que a única maneira possível para aprender sobre anticapacitismo é estar aberta, também, ao desconforto de errar tentando acertar.

Nesse tempo em que estou trabalhando na 7.1 fui aprendendo na teoria e na prática o que é, de fato, conviver com pessoas diferentes de mim e o que isso significa. Te surpreenderia se eu dissesse que lidar com essa realidade mostrou que não existe nada de tão extraordinário aí? Que a realidade é que conviver com pessoas diferentes de mim está exatamente no fator ordinário disso tudo: é apenas o que é. A estranheza é causada pela falta de familiaridade e convivência e quando os laços de convivência se estreitam tudo parece que está em seu devido lugar.

Meu maior aprendizado depois de começar a conviver com DEFs é que quanto mais me aproximo, mais me parece intrinsecamente natural o convívio. Quanto mais aproximo a minha vivência da de pessoas com deficiência, mais entendo que não há nada ali de tão excepcional para se fazer alarde. O que mais importa é a disponibilidade e abertura ao encontro! A primeira etapa para essa naturalização, para mim, foi perder o receio de errar. Partindo do pressuposto que estou intencionalmente querendo me abrir para o diálogo e a convivência com todas as pessoas, que estou preocupada em como as minhas práticas podem ferir a existência das pessoas, e que estou interessada em descobrir e entender melhor sobre outros universos, fui percebendo que o maior entrave social para a naturalização de outras realidades é mesmo o desconhecimento sobre elas.

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