Caru é uma multiartista que já percorreu diversos lugares pelo mundo, mas que carrega uma identidade baiana forte e viva. Canta e compõe, mas começou nesse percurso escrevendo poemas. Leva na ponta da língua tudo o que acredita e deixa isso reverberar em cada palavra que compartilha com a gente aqui. Ela bate um papo sobre seu lugar, sua arte e todas as pessoas que a precedem e a motivam a seguir firme.
1. O fazer artístico é feito de muitas camadas. Muitas delas invisíveis.
Quando falamos de identidade falamos também a partir de onde o mundo nos enxerga. Você deixa o mundo te dizer quem você é e o que pode a partir das identidades que carrega?
Olha, se eu fosse seguir o que o mundo dita, eu não estaria onde eu estou hoje. Geograficamente, no trabalho, na vida. Tirando a fase da adolescência que foi uma fase mais complexa (é para quase todos), eu sempre fui meio kamikase, nunca me importei muito com o que as pessoas pensam de mim. Tenho uma personalidade forte, venho do interior da Bahia, numa família onde as mulheres são/eram fortes e altivas, não poderia ser diferente. Então em todo lugar que eu ia – já morei em vários lugares – a minha identidade vinha comigo. Seja essa personalidade altiva, mulher, baiana, seja, pelo recorte da sigla, sendo uma mulher livre e que se relaciona com pessoas, e que hoje quer construir uma família com uma mulher. Ou se eu for me definir pela deficiência. Todas essas insígnias não me reduzem ou me colocam em caixas, elas me expandem, me mostram que eu não caibo em certos lugares que gostariam de me colocar.
2. Como você cria a partir dos seus lugares no mundo? Entendo que como mulher, nordestina e com deficiência, você tem muitos atravessamentos. Como você se utiliza desses marcadores para ampliar ainda mais o que cria?
Como falei acima, todas essas características me expandem e servem de pano para a composição, para a criação, inovação, escrita… para me apresentar novas perspectivas. Hoje, além da música, eu cuido internamente de diversidade e inclusão em uma empresa Global, respondendo LATAM pelos dados e insigths. Esse cargo ampliou ainda mais as possibilidades, porque estou em contato com a diversidade nua e crua todos os dias e quando falo diversidade estou indo além dos marcadores tradicionais. Mas o fato de ter essas insígnias (gosto de chamar assim), faz você entender como que elas te impulsionam, e te tornam única em qualquer lugar.
3. Como começou o seu processo de criação desde cedo? Você lembra das referências que te fizeram perceber o que queria perseguir como artista? Como essas referências se apresentam na sua arte?
Elas começaram com decepções amorosas. Eu comecei a escrever poemas e só bem depois que viraram música, quando encontrei com meu primeiro parceiro musical lá em Salvador, Beto Márcio. Ele leu as poesias, se sentiu tocado e musicou duas. Depois desse movimento, vi que eu poderia escrever meus lamentos já pensando em música e assim foi. Eu uso muito da escrita pra desaguar sentimentos, não só meus, mas de histórias que escuto e daí acabo criando cenários imaginários e música para isso. Apesar de vir de uma família de músicos, professores da escola de música da Bahia (UFBA), como Fernando Santos, a música como instrumento de trabalho chegou mais tarde em minha vida, lá pros 22, 23 anos.
4. Você usa o termo CAPILOGÊNCIA (que fui procurar no google e não tenho certeza se entendi bem) para falar de sentimento nordestino que transcende. Você pode explicar melhor o que isso quer dizer? Tanto o que é capilogência, quanto como perambula esse espírito nordestino que transcende os lugares que habita?
Capilogência é uma palavra que eu e minha família ouvíamos muito da minha vó, que chamo de Mainha, Dona Shirley, ou Francisca como está no RG (mas isso é papo maior hehehe). Ela sempre nos dizia que para resolver as coisas da vida, as mais complexas, precisava ter capilogência. E com uma entonação bem específica, algo como: “capilogêêêêênnnncia”, com esse “e” alongado. O significado se assemelha à sabedoria, mas não só, é sabedoria com perspicácia. Algo por aí. Uma malícia junto com inteligência… é um molho a mais para resolver questões. Isso é ter capilogência. Além dessa palavra, mainha ensinou tantas outras e tantos outros trocadilhos, frases, que só a gente da família entende. Até um assobio específico para encontrar algum membro da família no meio da multidão a gente tem “registrado”. São muitas significâncias para não levar adiante. Então acabo levando tudo isso comigo pra onde eu vou, sabe? É bonito ter esses mistérios só nossos e aí no meio de alguma conversa eu solto alguma dessas frases, ai ninguém entende… ahahahhaa mas eu dou risada por dentro e às vezes explico, às vezes não. Tal qual Mainha fazia com a gente, só o tempo foi explicando o que significava! hahaha Vou deixar uma dessas pra você: “se liga não me liga, eu também não ligo liga, mas se liga me ligasse, eu também ligava liga.” E aí, entendeu?
5. Você acha que existe outro modo de fazer arte sem ser esse: sem pedir licença pra ser?
Acredito que não. Assim que pedimos licença a gente acaba se enquadrando, tentando fazer caber nos espaços. Quando pra mim, o espaço que deve aceitar todos os tamanhos, formatos, diferenças e particularidades. E só dá pra ser assim se a gente chega com nossas singularidades, sem pedir licença. Pra quem eu peço licença são para as pessoas que vieram antes, minha vó, meus antepassados, quem abriu os caminhos antes. Aí sim… É quase que como reverência, respeito.
6. Assim como todas as mulheres da sua família que foram/são altivas, você acha que o que você faz chama outras para virem junto com você meter o pé e abrir à força as portas?
Espero que sim! Já ouvi de algumas pessoas (além de mulheres), que as inspirei para fazer algo, para tomar alguma atitude, decisão, se arriscar e isso foi muito bom de ouvir, de ler. Porque é como eu opero, vou me jogando e colhendo as amoras que tiverem no caminho. E que bom que eu consegui, mesmo com meus desafios, com momentos xenofóbicos, capacitistas, homofóbicos, ultrapassá-los, com feridas, óbvio, mas segui. E aqui estou. De verdade, espero inspirar outras pessoas a ter coragem.
7. É preciso viver a vida de um jeito criativo e com malícia pra resistir as complexidades que ela traz. Foi isso que sua família te ensinou e você quer mostrar tb?
Totalmente. Minha vó materna é costureira, costurar é arte, é sensível. Fazia artesanato, flores de papel crepom, fuxicos… Minha bisavó era do campo, mas também sabia costurar. Minha parte paterna é da cozinha, da lavoura, vieram da Itália e a atuação era no campo e na colheita: café, uva, vinho… Minha mãe hoje é artista plástica. Depois que se aposentou, se dedica ao desenho e a pintura e isso lhe faz muito muito bem. Mas antes, tinha bisavô, tio avô e tia avó maestros e maestrina. Então a música já existia de todo jeito. A criatividade ela existe pra encarar os problemas da vida, os mais complexos só se resolvem com muita criatividade e isso com certeza a arte, a música me trouxe. Caminhos diferentes para inovar, para chegar em lugares novos. Sem dúvidas!



