Cultura e arte DEF podem ser o que quiserem

A arte DEF pode ser política, mas ela pode também ser o que ela quiser. A construção de novas narrativas colabora para ampliar todos os espaços possíveis: os físicos e os imaginários. Cláudio Rubino, artista, gestor cultural e especialista em acessibilidade, conversa com a 7.1 sobre seu processo de pesquisa no Tarô do Aleijo, sobre como chegou até ele e desejos futuros para esse projeto.

1. Nesse trabalho, em especial, qual foi o seu interesse primeiro? Você já tem familiaridade com os aspectos do Tarô e teve a intenção de criar um Tarô que contemple pessoas com deficiência?

O Tarô do Aleijo emergiu de dentro de uma pesquisa performática no mestrado em Artes da Cena (Escola Superior de Artes Célia Helena e Escola Itaú Cultural). Inicialmente, era apenas um dos elementos do meu trabalho final para o curso, uma palestra-performance intitulada “Uma mãozinha para o anticapacitismo na cultura“, um jogo irônico com o título evocando a minha deficiência física e minhas práticas. Essa investigação poética, sustentada por referenciais teóricos, propunha apresentar a Cultura do Acesso e a Arte DEF tensionando a acessibilidade de outro modo, diferente da minha atuação de décadas como gestor cultural e especialista em acessibilidade. O tarô surgia como um bloco provocativo, evocando ideias de predestinação, futuro, e os corpos DEFs como cartas marcadas, de destino instável. Com o avanço da pesquisa, dos artigos e do piloto da performance, o Tarô do Aleijo eclipsou os outros elementos e virou supernova. Eu me tornei o Arcano Rubino: mago do excesso e do detalhe, artista autista, aleijado viado, superdotado implodido, corpo da passabilidade estética e bailarino do acesso.

Nos meus 20 e poucos anos, tive interesse por diversas religiões: católica, judaica, islâmica, budista, hindu. Frequentei também ordens filosóficas como Maçonaria, Rosa-Cruz e Eubiose. Estudar essas instâncias subjetivas, quase abstratas, do místico, do sagrado e do capitalismo exotérico me intrigava. Foi nesse contexto que tive meu primeiro contato com o tarô. Em todas essas experiências, acabei vivenciando intuitivamente algo que hoje reconheço como a Teoria Crip, antes mesmo de Robert McRuer ou Gustavo Piccolo (O lugar da pessoa com deficiência na história) escreverem sobre. Corpos como o meu, mentes como a minha, eram lidos como penitência, impureza ou débito energético de vidas passadas (ou pendências familiares). Isso me colocava numa subcategoria da humanidade, tanto por ser DEF quanto por ser gay. Eu era uma carta marcada: ou redimia minha existência servindo como exemplo de superação ou encarnava o castigo vivo de um erro ancestral. Durante o mestrado, tudo isso voltou à tona. Decidi então emular o misticismo aleijando-o para a Cultura DEF.

2. Além da beleza estética e significados que o Tarô traz, você reafirma o tempo todo um lugar político de pensar essa arte aleijada, sempre com muito embasamento teórico. Você acha que existe uma forma de fazer arte DEF sem que ela seja intrinsecamente política? Te interessa fazer uma arte que não tensione o capacitismo? 

Acho que há espaço para todas as manifestações artísticas. Sou ilustrador desde os 13 anos, fui bailaor por quase uma década e trabalho com figurinos e cenografia há mais de dez anos. Até 2022, minha mãozinha de obra e arte aleijada estava sempre a serviço dos bípedes, dos hegemônicos, das pessoas sem deficiência. Eu ainda presto serviços para os “normais” e, mesmo assim, minha arte sempre foi política, mesmo sem explicitar o anticapacitismo. Minha existência tensiona essa norma, inclusive com a passabilidade que carrego como DEF físico e neurodivergente. Nas minhas produções mais recentes, como os figurinos e cenografias que fiz para os espetáculos DEFFUTURISMO, Quanto vale um corpo DEF? e Darkruim, do João Paulo Lima, além do próprio Tarô do Aleijo, a intenção é abertamente crítica, política e poética. Esse sincretismo é possível e necessário.

3. O seu trabalho com o Tarô do Aleijo traz a ideia da acessibilidade cultural e visa pensar a acessibilidade de outras formas, indo muito além da inclusão. Para você, como teria sido vivenciar um lugar de pertencimento artístico desde sempre? 

O Tarô do Aleijo também ironiza a noção de inclusão, o Cercadinho PCD, esse lugar físico e simbólico em que nos confinam enquanto DEFs. Quem decide quem será incluído? Quem tem o poder de incluir? A proposta é tensionar os atravessamentos assistencialistas, capacitistas e interseccionais que envolvem também raça, gênero, sexualidade, regionalismos, imigração e refúgio.

Minha trajetória profissional é mais sólida (pero no mucho, pois um DEF não tem esse lugar ainda) no campo da gestão, da produção, da formação e da consultoria em acessibilidade cultural. Parte disso se deve ao sistema refratário que vivi na arte enquanto jovem. Deixei de dançar por causa da assimetria do meu corpo e das exigências normativas que me forçavam a performar hegemonia. Fui alvo de comparações cruéis e de sistemas de exclusão muitas vezes nada velados.

Antes da dança, durante a graduação em artes, experimentei esse não-lugar. Criei uma escultura com réplicas do meu braço e mão DEFs saindo de um baú, entre folhagens e detritos, uma obra autobiográfica sobre “sair do armário DEF”, em pleno ano 2000. Ela não foi aceita em nenhum salão de arte e foi considerada “muito temática” pelos professores, como se o corpo aleijado não coubesse em tema algum. E ainda somos lidos assim! Temáticos. Enquanto outros grupos minorizados não carregam essa carga estigmatizante desacreditada e, ainda assim, reproduzem a opressão contra nós DEFs, negando seus próprios pares (como fez a curadoria de uma importante exposição de artistas negras e negros em itinerância de 10 anos pelo Brasil).

Na época da minha graduação, não existiam artistas DEFs destacados na bibliografia das artes. Hoje, o cenário é outro, com artistas como Céu Vasconcelos e Daniel Moraes, que além de mãos aleijadas, também são gays. Ana Cândida também é uma importante referência, ainda há poucas autistas que se posicionam nesse campo político da Arte DEF, que além de tudo também pode ser neurocapacitista e machista. Eu não pude ter o que os artistas DEFs mais jovens têm hoje. Mas, antes tarde do que nunca. Por isso é de extrema importância o fomento à artistas DEFs nos editais nacionais e internacionais, bem como programas como o Unlimited no Reino Unido, o Entre Arte e Acesso do Itaú Cultural e o Artes Digitais DEF no Cultura Inglesa Festival.

4. Além da performance em si, você pensa em tornar o Tarô um artigo que pode ser amplamente adquirido?

Sim! A intenção é comercializar o Tarô do Aleijo com instruções de leitura acessíveis. Estou finalizando a pesquisa e trabalhando nas ilustrações das cartas. Em breve, espero captar recursos por meio de editais ou patrocínios diretos para viabilizar a impressão da primeira edição com os 22 arcanos maiores. As cartas serão ligeiramente maiores que as convencionais, com recursos de relevo e braille. Cada uma terá audiodescrição estética e as instruções estarão disponíveis em locuções e Libras, acessadas via link e QR Code no manual do baralho. Já estou pensando na segunda edição (ansioso), com o baralho completo com as 78 cartas, mas isso exigirá mais tempo de pesquisa e convivência com os 22 arcanos aleijados.

5. Se você fosse escolher uma carta para ensejar cada vez mais visibilidade e respeito pela arte DEF, qual carta você puxaria e por quê?

Quando comecei a conceber o Tarô do Aleijo, usei como base o tarô de Marselha, um referencial clássico. Embaralhei as cartas e puxei uma, justamente a primeira que redesenhei: O Louco se tornou O DEF, o arcano zero. Ele é um cafuçu que caminha em direção à ribanceira, à beira do estouro. Confiante com sua única perna e uma muleta atochada no suvaco com a ponta na quina da vertigem. Chapéu de palha de babaçu, camisa branca aberta, shortinho, chinela, capa véia vermelha de bolinhas, pedaço de pau no ombro com matulinha e uma florzinha na mão. Logo atrás, um doguinho vira-lata estopinha com a língua pra fora, todo pimpão, caminhando junto com suas rodinhas traseiras onde antes haviam patinhas. Ainda tem o sol de derreter o juízo, umas nuvens e o mar arrebentando no fundo, e o doido segue. Ele representa o corpo que se lança no mundo sem pedir licença, que tropeça, mas vai. O DEF é o passo inaugural do desequilíbrio criativo, do risco de existir fora do eixo, fora da norma, de retomar a arte. O DEF não é ingênuo, mas sabe que a razão nem sempre dá conta e ainda assim (ou por isso mesmo) se move. É como muitos de nós DEFs nos sentimos. Apontando para o ato quase exaustivo de começar, recomeçar, seguir, independente das condições e mesmo sem saber onde vai dar.

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