Existe algum modo de vida que não passe pelo corpo? Sabemos que a razão, as emoções, diferente do que se imaginou um dia, não se separam da corporificação. É pelo corpo que se vive e se sente. E existem diversas maneiras de ser corpo. Lívea Castro sabe bem disso e em sua oficina de dança Rota de Encontro propõe um espaço de troca e criação que se aparta das noções de um corpo padrão. O que interessa é a diversidade das potencialidades. E queremos entender melhor sobre o Rota de Encontro.
1 – Lívea, de onde parte, inicialmente, a sua ideia de investigação em Rota de Encontro?
Falar/investigar sobre o encontro é algo que faço há muitos anos, de formas diferentes, pois fui percebendo o quanto eu me encantava pelos encontros que tinha pela vida. Eu sou uma pessoa que acredita muito nas potências do corpo, e o corpo só existe em relação. O encontro me fez perceber isso. O título da oficina em si surgiu na pandemia, quando fui convidada para propor uma oficina online, e eu – com apaixonamentos à distância – me questionava como poderíamos falar de encontro de outros modos naquele contexto tão terrível em que vivíamos. O título “rota de encontro” é pra sugerir que muito pode acontecer no trânsito, no enquanto – não estamos falando de um PONTO de encontro, nem uma rota de fuga, mas de uma rota em que encontros são construídos num gerúndio em acontecimento.
2 – O que mais te fascina pensar quando o assunto é: o que pode um corpo?
Uma das coisas que mais me fascina pensar quando o assunto é “o que pode um corpo?” é o fato de que eu, como propositora/professora/artista da dança, nunca terei todas as respostas sobre uma experiência. Existe sempre algo que escapa às expectativas, ao controle, às fronteiras da identidade daquele corpo, algo que é inerente da experiência. E quando estamos em contato com outros corpos, em relação, construindo uma experiência em dança onde as resoluções acontecem pelo próprio movimento, essas expectativas se borram ainda mais. Acho fascinante o não saber que vem dessa crença: o corpo pode tudo o que ele quiser, e isso significa ser um universo de possibilidades.
3 – Você, enquanto artista e pesquisadora, pessoa sem deficiência que se alia às causas da diversidade, como você acha que esse projeto contribui para ampliar as noções de troca e movimento e conexão entre pessoas múltiplas?
A oficina de dança contemporânea Rota de Encontro é uma proposta com metodologia elaborada para que pessoas diversas possam participar. Quando falamos de uma proposta nessa perspectiva (que foge da ideia de uma oficina “”adaptada para corpos com deficiência””), estamos falando sobre criação de espaços de convívio na alteridade. Naturalizar esses espaços faz parte de um compromisso ético e político que defendo em minhas práticas artísticas e pedagógicas. Acredito – e percebo – que o convívio com as diferenças é imprescindível, e potencializa e complexifica nossa experiência enquanto comunidade e sujeitos pensantes no mundo.
4 – Qual o seu maior desejo com esse projeto?
Meu maior desejo com projetos como esse é que as pessoas se sintam mais apropriadas do próprio corpo, com mais autonomia, e percebam que é possível criar ferramentas/estratégias sensíveis de percepção a partir do encontro com as diferenças. Meu desejo é que essa proposta inspire outras iniciativas semelhantes, e que cada vez mais corpos com e sem deficiência possam coexistir com dignidade e plenitude.



