Por Alexandre Ohkawa / Ilustração Paloma Santos
Uma reflexão urgente sobre a qualidade da tradução para a comunidade surda, ensurdecida e até autistas (que usam abafador de som) que parece ser tratada como última prioridade.
Durante anos, eu vivi na ilusão da acessibilidade, achando que as legendas que via em filmes eram um reflexo fiel dos diálogos originais, não só nos filmes brasileiros, mas também nos estrangeiros.
Recentemente, em uma avaliação de legendagem de um filme brasileiro, minha parceira, Raíssa Couto, soltou um comentário que fez o meu mundo cair: as legendas estavam ruins!
Eu, ingênuo, achava que o português formal usado nas legendas era o modo como os personagens realmente dialogavam. No entanto, ela me alertou: os diálogos eram repletos de sotaques e gírias regionais, nada a ver com o texto engessado que líamos.
Fiquei profundamente triste e chocado. Como é que passei todos esses anos achando que as legendas eram, de fato, acessíveis?
De imediato, veio o questionamento: Será que não houve uma validação de pessoas surdas junto a ouvintes?
Me senti duplamente injustiçado em nome da representatividade da comunidade surda. Esse erro priva a comunidade surda, ensandecida e algumas pessoas autistas de terem um conhecimento real sobre a riqueza cultural expressa em gírias e sotaques regionais.
O Problema Não é Exclusivo só do Brasil
Essa falha de coerência não se restringe à nossa produção nacional.
Em busca de respostas, comecei a assistir a filmes no cinema e perguntar a amigos que entendiam inglês se as legendas em português estavam boas e coerentes com a fala original. Eles, chocantemente, responderam que não. Classificaram elas de “médio a ruim”.
Um amigo ouvinte me deu um exemplo claro: em filmes americanos, gírias que fazem parte da cultura local são, muitas vezes, mal traduzidas ou contextualizadas de forma incorreta nas legendas em português. Ele, que ouve e entende o inglês original, se irrita porque a incoerência da legenda atrapalha seu raciocínio, fazendo-o perder o foco. É por isso que muitos ouvintes que conhecem bem o inglês pedem para retirar as legendas. O problema não é a legenda em si, mas a qualidade do trabalho.
O conflito é claro: se a legenda não respeita as nuances culturais (sotaques e gírias) do português brasileiro, também não respeita as nuances (gírias e contexto cultural) dos idiomas estrangeiros.
A Pressa e o Descaso: Acessibilidade Fica para Último?
Essa falha sistêmica me leva a uma suspeita: o que está acontecendo no processo?
Minha sensação é de que esses profissionais, sejam tradutores ou legendistas, trabalham sob prazos curtíssimos, sem o tempo necessário para avaliar os aspectos culturais e regionais do diálogo e principalmente sem a consultoria de um profissional surdo.
A acessibilidade, infelizmente, parece ser tratada como a última prioridade, um item de checklist a ser cumprido de forma genérica, e não como uma parte essencial da experiência artística.
LSE vs. Legenda Descritiva: A Diferença que a Cultura Exige
Em busca de soluções, conversei com um casal de amigas que trabalha com a Legenda Descritiva.
Uau! Legenda Descritiva? Qual é a diferença para a Legenda para Surdos e Ensurdecidos (LSE)? Perguntei.
Elas me contaram um episódio revelador que ilustra a importância da descrição sonora:
As amigas Cláudia (ouvinte) e Malu (surda) foram assistir a um filme de terror. O filme começou com a tela preta e um título, seguido por um ruído assustador. Cláudia se assustou, mas Malu permaneceu quietinha, esperando o filme começar. Foi aí que Cláudia percebeu: faltou legendar e descrever o ruído de fundo. Para quem não escuta, essa descrição é essencial para a experiência.
Mesmo usando aparelhos, comecei a notar a omissão constante de informações cruciais. Um ruído de batida na porta, por exemplo, não estava descrito na legenda.
Essa omissão é frustrante e, me colocando no lugar dos outros, me sinto completamente injustiçado.
A LSE em seu formato comum, que foca apenas na transcrição da fala, precisa de uma reforma urgente. Ela falha ao não descrever a riqueza sonora.
Já a Legenda Descritiva (ou Closed Caption completo) é a solução que precisamos. Ela vai além da fala, pois descreve integralmente ruídos, músicas, emoções e sons de fundo. Para alcançar essa qualidade e coerência cultural, é indispensável o trabalho atento de um bom legendista, e, acima de tudo, o acompanhamento e validação de consultores surdos.
O maior problema e conflito está, de fato, nas mãos dos profissionais. Não sabemos se alguns deles estão sendo forçados a produzir legendas de maneira superficial devido à pressão de prazos apertados e baixo orçamento, ou se o problema reside na acomodação e na rotina simplificada o que resulta em um desserviço a acessibilidade e qualidade, prejudicando o entendimento integral de filmes e produções audiovisuais para uma boa parte da população.
Alexandre Ohkawa



