Por Que a Inacessibilidade Vira Motor da Arte Def?

Fotografia em plano médio de Luiza Sigulem em sua cadeira de rodas. Ela tem pele clara, cabelos pretos com franja e veste blusa e calça pretas. Luiza está posicionada de perfil, com o corpo inclinado para frente em um gesto de movimento ou impulso. Seus pés estão descalços. O fundo é uma parede lisa em tom neutro. À esquerda, em letras garrafais azuis, lê-se o título do post sobre Arte Def e o nome da artista em destaque. No canto inferior esquerdo, o @ da página.

A arte tem o poder de pegar o limite e transformar em convite pra gente pensar de maneira ampliada e crítica. Para a equipe da 7.1 acessibilidade criativa, a exposição Manual para percorrer a menor distância de um ponto a outro, da Luiza Sigulem, além de não fugir dessa regra, é a prova de como a falta de acessibilidade pode se tornar o maior ativo e motor estético da arte feita por pessoas com deficiência, a “arte def”.

A exposição acontece no Ateliê397, na Travessa Dona Paula, uma charmosa vila em Higienópolis, São Paulo. E se ao chegar você se sente numa rica e acolhedora viagem ao passado e nada neste lugar te incomoda, essa experiência única da exposição é pra você.

Digo isso, porque certamente você, sem deficiência, não entenderá como os solavancos causados pelos paralelepípedos na minha cadeira de rodas seguem ecoando por cada músculo do meu corpo. Você também não sentirá tensão com a porta estreita, a escassa área de manobra na calçada e a possibilidade de sua cadeira de rodas não conseguir entrar no Ateliê. Inclusive, na busca por economia de algum valor irá olhar uma placa de compensado cru sobre o paralelepípedo e até cogitar mover para outro lugar, afinal que sorte a sua ter uma vaga bem na frente da casa. O mundo foi e ainda é feito para corpos que não fogem de um padrão. 

O grande diferencial é que artistas como a Luiza conseguem inverter o jogo e subverter a norma de corpos, espaços e tempos. Sim, no plural. Logo você irá entender.

A 7.1 acessibilidade criativa, fez uma visita guiada pela artista, acompanhada por Mônica Maia. Durante a visita  foi muito forte o depoimento sobre a escassez de equipamentos de cultura com acessibilidade plena e/ou parcial que pudessem abrigar sua mostra na cidade de São Paulo. Com agendas lotadas, os grandes equipamentos públicos se tornaram inviáveis. As pequenas galerias tinham interesses comerciais e as independentes eram inacessíveis, não só arquitetonicamente.

Logo, ficou evidente que em vez de encarar a inacessibilidade como mais um problema chato e irritante a ser consertado para sua mostra, sua única saída seria assumir a questão como realidade estrutural. E é essa sacada que faz com que a “arte def” não só denuncie a falta de acesso, mas a use como um método para criar e intervir nos espaços.

Depois de ter lidado com as inacessibilidades atitudinais de alguns locais a mostra foi acolhida pela equipe do Atelie397. E aqui o uso do verbo acolher é proposital. Luiza Sigulem contou que foi a abertura de diálogo para que intervenções arquitetônicas e estruturais pontuais acontecessem, que a fez intervir para além da casa que abrigaria a mostra e expandir o olhar para o coletivo da Vila. Mas como intervir em um espaço coletivo?

Luiza e sua equipe de arquitetos e marcenaria fizeram projetos de rampas móveis, milimetricamente projetadas para a frente dos imóveis. Fez rodas de conversas e pesquisas com a vizinhança que é conhecida por suas galerias, restaurantes e cafés. Trouxe de Salvador a técnica para não deixar com que os paralelepípedos façam mais pessoas como eu sofrerem, caso os proprietários quisessem investir na acessibilidade, caminho que ainda não escolheram até o momento.

No lado externo da casa, um banheiro químico para pessoas com deficiência parece ter encontrado seu lugar perfeito sem destoar do clima bucólico da vila, intervenção acertada da artista que relatou que as pessoas da Travessa estudam manter o equipamento mesmo com o fim da mostra.

Ao entrar na casa, havia um longo e estreito corredor e à direita uma passagem para uma escada que levava ao segundo andar, interditado para a exposição. No corredor, notei um volume crescente descendo da laje que me parecia estranho, mas esperado em uma casa de vila. Enquanto para mim, que sou cadeirante, passar por ali foi levemente estranho, minha companheira de equipe da 7.1 acessibilidade criativa, mulher sem deficiência e alta, teve que se abaixar e inclinar o corpo para passar. Finalmente, adentramos um pequeno e estreito salão.

Com isso, a relação de espaço versus corpo versus tempo já tem a primeira inversão de padrão no local em que você é recepcionado. Foi possível observar, por mais de uma vez, pessoas sem deficiência diminuindo seu passo para não esbarrar ou bater a cabeça.

Talvez no cotidiano você nem perceba que pessoas com deficiência se adequem ao mundo e não o contrário. Naquele momento, quem se adequou não fui eu, mas minha colega. Foi ela que diminuiu os passos e teve seu tempo de percurso aumentado. Milésimos de segundos, mas o suficiente para experimentar o sufocamento da inadequação. E assim, com uma vivência de “crip time” sua intervenção em gesso com estética de uma rampa, Luiza já declara ao mundo que a linha do tempo não é algo único no mundo e sua calibração de ritmo é dependente da sua corporalidade.

E é com essa reflexão em mente que do lado direito do salão, uma parede branca abriga três monitores em altura do olhar rebaixada, acolhendo pessoas com deficiência e exigindo que o visitante sem deficiência recalibre os seus parâmetros de normalidade mais uma vez. Cada monitor exibe releituras de performances artísticas estrangeiras.

No primeiro monitor, Luiza exibe passos lentos e inconstantes sobre linhas no chão, evidenciando o esforço para seguir um percurso linear não natural para seu corpo. O ritmo, influenciado pela deficiência (crip time), levanta a questão: seu tempo é maior ou apenas diferente? Não há ineficiência corporal. Essa reflexão leva ao segundo monitor, onde a artista em cadeira de rodas tenta acompanhar o ritmo de pedestres em calçadas movimentadas, mas é forçada a fazer desvios ou parar quando obstáculos que proíbem sua passagem.

O “crip time” ganha mais latência e camadas de reflexão a cada segundo exatamente pela inacessibilidade exibida sem as usuais narrativas comoventes e de virtude. A repetição em diferentes locais gera ainda mais incômodo.

A exposição se apropriou da inacessibilidade local e segue gerando esses questionamentos no espectador do início ao fim, onde livros de teoria da deficiência e “arte def” interditaram a segunda escada do local. O ateliê397 é muito pequeno e foi possível observar a pequena comoção gerada em pessoas sem deficiência quando eu e Luiza com nossas cadeiras nos movemos pelo salão. Um ballet usual para nós duas, mas alarmante para quem não vive o sufocamento da inadequação arquitetônica.

Nesse ballet cotidiano, a pressa e o tempo normativo não permitem que as pessoas reflitam sobre o espaço como fator importante na equação do “tempo da deficiência”, muito menos sobre a arquitetura hostil que nos sufoca com seus obstáculos. Fica então o convite e a recomendação da nossa equipe para que você reserve um tempo, visite a mostra e reflita sobre tempos, espaços e corpos.

Exposição Manual para percorrer a menor distância de um ponto a outro, de Luiza Sigulem
Curadoria de Juliana Caffé
Expografia de Messina | Rivas
Visitação: de 24 de janeiro a 28 de fevereiro de 2026
Quarta a sábado, das 14h às 18h

Conversa de encerramento com Luiza Sigulem, Messina | Rivas e Juliana Caffé
28 de fevereiro (sábado), às 18h

Local: Ateliê397 – atelie397.com
Travessa Dona Paula, 119A – Higienópolis, São Paulo
Entrada gratuita

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